Contos & Crônicas

#01: E a cor do seu rosto eu já sei de cor

janeiro 19, 2017

“O meu desespero
É que quando acaba
Você fica inteiro
E eu fico o pó”
Um Só, Clarice Falcão


31 de dezembro de 1998, 23:30
Aeroporto de Lisboa

Faltam alguns minutos para 1999 e aguardo, desgostoso, a chamada para o vôo que me levará de volta ao Brasil. Protagonizo, nesse momento, a parte final de uma triste jornada romântica o mais clichê possível: garoto encontra garota, eles se apaixonam, vivem momentos inesquecíveis juntos, algo terrível acontece e cada um segue seu caminho, sozinho.

A minha história não tem nada de diferente. Só acho que ela é pior do que as outras simplesmente porque aconteceu comigo.

Eu estava sentado em um banco às margens do Rio Tejo e comia a melhor pizza da minha vida – não sei se era realmente boa ou se a minha fome contribuiu para uma melhora significativa em seu sabor –, distraído demais para perceber a chegada dela.

“Com licença.” Ela disse, sorrindo, ao aparecer subitamente. “Pode tirar uma foto minha?”

Não me lembro há quanto tempo não ouvia o português com sotaque brasileiro. Depois de três meses em Lisboa, até eu já pulava vogais e emendava as palavras ao falar.

Prontamente, me levantei e bati a foto.

Seus olhos eram grandes e pretos, e eles brilhavam sobre as sardas que iam do nariz até as bochechas. Seus lábios finos davam lugar a um sorriso misterioso e seus cabelos estavam perfeitamente desarrumados.

Antes de lhe devolver a câmera, eu já estava apaixonado.

Ela pediu um pedaço de pizza e se sentou ao meu lado. Falamos sobre a cidade, sonhos e saudade. Ela me levou à casa de fado e eu a beijei em frente a uma bela igreja cujo nome jamais saberei. Deitamos em minha cama abraçados e conversamos até que os olhos começassem a se fechar e nossas frases não fizessem mais sentido. Saí para comprar pão para o café da manhã torcendo para que ela ainda estivesse lá quando voltasse.

E estava.

Não nos desgrudamos desde então, durante os dois meses que se sucederam.

Todos os dias, eu a beijava mais do que havia beijado qualquer mulher durante toda minha vida. Nos perdemos no metrô porque estávamos mais preocupados com a conversa do que com o caminho e bebemos todos os vinhos que nossos corpos nos permitiram.

Ela dormia comigo mais do que dormia em sua cama; nós dançávamos ao som de New Order, Bad Religion, Backstreet Boys; e ela até tentou me ensinar a tocar ukelele.

Sua passagem de volta estava marcada para duas semanas antes da minha e eu já me preparava para ficar aqueles quinze dias sem ouvir sua risada esquisita, sem me divertir com seu mau humor matinal, sem poder ficar horas observado seu rosto – eu já sabia de cor o formato de suas sardas.

Na manhã que antecedia sua partida, ela tomou o café de forma mais quieta do que o normal, evitou meus olhos sempre que possível e parecia um tanto quanto pensativa e avoada.

“Me passa seu telefone do Brasil.” Eu disse, lhe estendendo um papel e uma caneta.

“Eu tenho um namorado.” Ela respondeu, me olhando nos olhos pela primeira vez naquele dia. “Eu tenho um namorado no Brasil.”

Naquela manhã, ela despedaçou meu coração por mais vezes do que eu esperava: ao contar sobre o namorado; ao reiterar sua afirmação; ao dizer que não deveria me sentir mal, uma vez que não havíamos feito qualquer acordo sobre relacionamentos; e ao sair pela porta, depois de me beijar no rosto.

Minutos antes, já não sabia como viveria sem ela por duas semanas. Então, me vi tentando entender como seria viver sem ela por todos os dias do resto de minha vida.

E agora, cá estou eu, contando nossa história em um papel que será amassado e jogado no lixo em questão de minutos, enquanto me pergunto se existe algum fuso-horário, em qualquer lugar do Universo – deste ou em algum paralelo –, em que ela dorme em meus braços e meu coração ainda está inteiro.

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