Contos & Crônicas

#05: A Moça do Café e dos Dedos Dançantes

março 16, 2017

“Moving on down my street
I see people I won’t ever meet
Think of her, take a breath
Feel the beat in the rhythm of my steps
And sometimes it’s a sad song”
The Sun, Maroon 5


Eu estava preso em um trânsito congestionado demais para uma tarde de segunda-feira em plena Faria Lima. A réporter no rádio repetia a mesma notícia de quinze minutos atrás e eu me perguntava por qual motivo ainda não havia trocado meu carro por uma bike, enquanto observava as pessoas pedalando pela ciclovia ao meu lado. Antes mesmo que a inveja consumisse meu ser, o relógio de rua me lembrou que fazia 29ºC lá fora e que, apesar da lentidão na viagem, estar dentro de um carro com ar-condicionado era minha melhor opção no momento.

De repente, ela apareceu. Do outro lado da rua, uma moça de estatura mediana, cabelos ondulados e vestido cinza chamou minha atenção, me fazendo esquecer da bike, do trânsito e de qualquer outra parte do mundo a qual ela não estava inserida.

Os fones de ouvido gigantes em suas orelhas deviam reproduzir uma boa música, uma vez que ela não conseguia seguir seu caminho sem fazer com que os dedos de suas mãos dançassem levemente no ar. Comecei a me perguntar o que ela poderia estar ouvido. Será que nós tínhamos os mesmos gostos? Era impossível saber. Seu Spotify poderia estar tocando tanto The Black Keys, The Killers ou Franz Ferdinand, como também Molejo, Maiara e Maraisa ou Legião Urbana. Ou até mesmo poderia estar ouvindo alguma música que nem ela sabia o nome, depois de dar o play em uma rádio aleatória.

Na mão esquerda, café em um copo especial para viagem. E quem é que toma uma bebida quente em um calor de vinte-e-nove-graus?! Seu gosto parecia ser um pouco mais refinado, uma vez que a marca da embalagem era pouco parecida com aquela em que todo mundo vai, mas nem tem um café tão bom assim.

E assim ela seguiu, a moça sem nome, com seus dedos dançantes, sua música misteriosa e o café rasgando sua garganta em plena tarde de verão. Enquanto decidia que seria um tanto assustador qualquer tentativa de aproximação – por mais educada e cuidadosa possível –, o farol abriu e eu, finalmente, pude me mover por mais que alguns metros.

Até qualquer dia desses, Moça do Café e dos Dedos Dançantes. Esse ar-condicionado não me parece mais tão confortável assim, uma vez que não posso estar aí fora pra te perguntar as horas ou dar qualquer outra desculpa só pra ouvir sua voz e te fazer olhar nos meus olhos mesmo que por alguns segundos.

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Imagem destaque: Sandra Rodrigues

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