Contos & Crônicas

#03: Egoísta

fevereiro 8, 2017

“How many secrets can you keep?
‘Cause there’s this tune I found that makes me think of you somehow
When I play it on repeat
Until I fall asleep
Spilling drinks on my settee”
Do I Wanna Know, Arctic Monkeys


Ainda era segunda-feira, mas a sensação era de que eu havia passado uma semana inteira confinada no escritório. Isso não era algo atípico, todo mês era igual: eu correndo para colocar em dia todos os relatórios que poderia muito bem ter começado alguns dias antes.

Corrigindo: nem todo mês era igual. Minha rotina de trabalho podia ter continuado a mesma, mas tudo fora do escritório havia mudado.

Desde que ele resolveu sair de casa.

Me bloquear no Facebook.

E parar de atender minhas ligações.

Não teve drama, não teve traição, nada. Acordei em um sábado e sua mala já estava pronta, o esperando na porta. Ele disse que estava em uma fase muito boa em sua vida profissional e o fato de eu estar agindo de forma egoísta não o ajudava.

Realmente, eu fui muito egoísta.

Fui egoísta por querer que nós jantássemos juntos (mas era impossível, com ele chegando em casa sempre depois das 22:00), por achar que sua rotina de trabalho que durava cerca doze horas por dia durante a maior parte da semana não era algo saudável, por querer que os programas de fim de semana fossem mais empolgantes do que dormir o dia todo e ir comer fora por preguiça de cozinhar.

Comecei até a gostar de quando seu chefe nos convidava para um jantar ou havia alguma festa da empresa que nós precisávamos ir. No começo do namoro, tudo aquilo era bem enfadonho, mas depois se tornou a única forma que eu tinha de vê-lo sorrindo, bem-humorado, relaxado. Eu adorava vê-lo assim, mesmo sabendo que tudo se apagaria no momento em que entrássemos no carro de volta para casa.

Mas do que eu estava reclamando? Não precisava mais me preocupar com as contas, conhecia vários restaurantes diferentes todo mês e fazia viagens inesquecíveis nas férias. Ele estava até com a ideia de mudarmos para um apartamento maior.

Qualquer pessoa concordaria que eu fui extremamente egoísta. E confesso que eu mesma acreditei nisso no começo. Sem mim, sua vida parecia estar cada vez melhor. O apartamento maior realmente aconteceu. Para ele, claro. Seu Instagram estava cheio de imagens bonitas mostrando momento empolgantes de sua rotina e, semanas depois, seu LinkedIn me avisou que mais uma promoção havia acontecido.

Nesses cinco longos meses, eu também mudei. Meus posts no Instagram não estavam tão empolgantes quanto os dele, mas a minha “vida real” estava tomando forma de novo: voltei a cozinhar, li muitos dos livros que havia comprado e deixado na prateleira sem sequer uma página virada, comecei a fazer yoga e comprei uma bicicleta. Além disso, recordei como é bom ouvir a música que eu quiser no volume mais alto, sem ninguém reclamando.

Até tinha um novo bar favorito. E era para lá onde estava indo naquela segunda-feira longa depois do trabalho. Cheguei no balcão, pedi uma cerveja e lá fiquei, sentada, olhando o nada. Geralmente, eu costumava apreciar a vista, ouvir as conversas ao meu redor, observar as pessoas; mas naquele dia, aquele momento era só meu, um elefante vestindo uma saia tutu poderia se sentar ao meu lado que eu não perceberia.

Duas cervejas e três coxinhas cremosas depois, voltei ao mundo real, paguei a conta e estava me preparando para sair, quando ele apareceu. Eu preferia que fosse um elefante vestindo uma saia tutu, mas não era. Lá estava ele, sozinho, sentado em uma mesa, o copo vazio, seu olhar de alguém triste, desapontado. Aquela imagem não era nada parecida com o que sua vida virtual mostrava. E, como se eu não tivesse controle sobre meus pés, já estava andando em sua direção.

– Dia difícil? – Perguntei.

– Como você sabe?

– Bom, a sua cara não é de quem está comemorando algo.

Ele suspirou, me convidou para sentar. E, apesar de sentir que meu corpo inteiro me enviava sinais de alerta, aceitei.

O motivo daquele semblante sério era sua demissão, devido a um simples corte de gastos na empresa. Depois de contar a “novidade”, ele passou alguns minutos falando sobre como os sacrifícios feitos em prol da carreira pareciam não ter servido de nada. Foi então que eu senti como se uma parede estivesse desabando entre nós. Ter aceitado me sentar pareceu uma boa ideia, ele se mostrou feliz em me ver e ficamos um bom tempo conversando, lembrando dos bons momentos, rindo. Eu não me lembrava qual era a última vez em que tivemos um momento assim.

Quando vi que já eram quase 22:00, decidi que estava na hora de me despedir e ir para casa.

– Você precisava conhecer meu apartamento… Enquanto eu ainda tenho dinheiro para pagar o aluguel… – Ele parecia meio sem jeito com as palavras. – A gente podia tomar um vinho…

Aquilo era um convite para transar?

– Claro. A gente marca um dia desses. – Respondi, sorrindo sem nem perceber.

– O que você acha de hoje?

Sim, aquilo era um convite para transar.

E eu aceitei, mais uma vez ignorando todos os alertas de que aquilo não parecia certo.

Seu apartamento era lindo e enorme, só a sala devia ter o dobro do tamanho do meu quarto. Fiquei me perguntando como meus últimos cinco meses teriam sido se ainda estivéssemos juntos. Certamente, teria feito uma decoração completamente diferente naquele lugar, mais colorida, com ambientes mais aconchegantes. Mas o sofá preto de couro no qual eu estava sentada refletia sua personalidade nova dos últimos tempos. Sóbria e séria. Me dei conta de que, nós poderíamos ter morado em um castelo, nossa relação nunca mudaria.

Ele abriu uma garrafa do meu vinho favorito e me forcei a ir para longe de meus pensamentos e minhas especulações sobre um passado que nunca aconteceu.

Uma taça depois, lá estava eu: transando com meu ex. Que mais parecia outra pessoa, um desconhecido. Não era ruim, até que foi bom, por sinal. Mas o toque não era mais o mesmo, o olhar não era mais o mesmo.

Eu não era mais a mesma.

Ao final, quando já estávamos completamente exaustos, passamos alguns minutos simplesmente jogados em sua cama, repousando. Decidi que era hora de ir.

– Não vai. Fica e amanhã nós tomamos café da manhã juntos. Precisamos conversar mais sobre as coisas.

– A noite foi ótima e nós podemos conversar mais e nos vermos outras vezes, mas eu realmente preciso ir. – Insisti, enquanto me vestia.

– O que você acha de se mudar para cá? – Ele perguntou. Meu corpo parou. Coloquei as mãos na cintura, a calça ainda no joelho, o observei confusa, incrédula. Ele parecia empolgado. – Bom, eu ia deixar para falarmos sobre isso enquanto nós tomávamos café, mas você não me deu escolha.

Eu continuava calada.

Ele continuou:

– Os meus últimos meses foram horríveis. Foi muito difícil passar por tudo sem você. Você não imagina o quanto eu nos imaginei aqui, juntos. E eu quero que você saiba que eu não guardo ressentimento algum, eu entendo que você teve seus motivos para agir daquele jeito. Nós não nos encontramos hoje por acaso. É algum sinal do qual eu precisava. Agora que eu saí daquele lugar, acho que nós podemos continuar de onde paramos.

Não houve declaração de amor, não houve pedido de desculpas. Pelo contrário, aquele “convite” parecia mais um favor, uma concessão de desculpas e uma chance que ele me dava para fazer com que nosso relacionamento desse certo mais uma vez.

Continuei a me vestir.

Ele parecia não acreditar no que estava acontecendo.

– Eu não quero continuar de onde paramos. – Finalmente, algo saiu de minha boca. – Quero continuar de onde eu parei. E eu estava indo para casa, antes de decidir te dar oi no bar.

Então, com um ar de desdém, ele não disse mais nenhuma palavra e me acompanhou até a porta.

Antes da despedida, a apunhalada final, clássica:

– Você continua a mesma egoísta de sempre, não é mesmo?

– Sim. – Sorri. – Obrigada pelo vinho.

E segui para a minha vida.

A minha nova vida.

Que, mesmo sem ter percebido, havia começado no momento em que nos despedimos pela primeira vez.

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