Contos & Crônicas

É hora de mudar?

novembro 2, 2015

São Paulo, segunda-feira, 6h. O despertador toca, mas Cecília ainda pode ficar mais meia hora na cama. No Instagram, todo mundo já está saindo pra academia, pro parque. No Snapchat, a musa fitness já deve estar no terceiro treino do dia. Alguns minutos assistindo a vídeos de 10 segundos com gatos e bebês, e também de saber as reações de todo mundo ao episódio de Game of Thrones que foi ao ar ontem, ela está pronta pra começar mais um dia.

Sai do banheiro com a toalha enrolada no corpo, suas costas ainda estão molhadas, mas ela nunca aprende; já não vê a hora de poder tomar seu próximo banho, assim que voltar pra casa.

O iogurte com granola também poderia muito bem ser seu encontro da noite de hoje: brigadeiro e um vinho tinto barato.

Bolsa, celular, fones de ouvido. Caminhada até o metrô. 20 minutos pra conseguir entrar num vagão. Calor. Aguarda ~a movimentação do trem à frente. Transferência. Consegue entrar no terceiro trem. Transferência. Olha, só! Segundo trem. Caminhadinha. Passa o crachá na catraca do prédio da agência. Dá “bom dia” pro recepcionista. Ele não responde, como sempre. Longos segundos no elevador – ela morre de medo de elevadores. Pronto.

Milagrosamente, ela não se atrasou. Pelo contrário, foi a primeira do escritório a chegar.

Pausa para aproveitar o raro momento de silêncio no trabalho. E também com clima agradável.

12h. Cecília foi transportada para uma feira livre no Rio de Janeiro (tanto pelo barulho, quanto pelo calor sufocante). Quem desligou o ar condicionado? Tá trinta e sete graus lá fora! Ela não fez nem metade das coisas que havia programado fazer. Sua amiga do Atendimento cancelou o almoço, então ela vai comer sozinha mesmo. Aos poucos, os almoços solitários vêm se tornando um grande prazer.

O celular toca. Reunião em 15 minutos.

Francamente, quem marca reunião em pleno horário de almoço?

Ao voltar correndo para o escritório, uma maravilhosa notícia: a reunião foi adiada. Pra semana que vem. De novo.

15h. Seu chefe faz aniversário de casamento. Cecília talvez não tenha se atentado ao contrato, mas, aparentemente, comprar flores para a esposa dele e escrever uma bela dedicatória no cartão também são coisas que fazem parte de suas atividades. O mesmo vale para apresentações em PowerPoint dos projetos da pós graduação do simpático rapaz – que só é simpático quando precisa pedir algo, na verdade.

Não, ela não pode simplesmente colocar seus fones de ouvido, toda hora alguém precisa perguntar algo, falar como foi o último fim de semana ou comentar sobre o episódio de ontem de Game of Thrones.

Cecília odeia pessoas. Cecília odeia quem fala demais. Odeia quem fala de menos. Odeia reuniões que poderiam ter sido resumidas a um e-mail. Cecília odeia a segunda-feira. E a terça. E a quarta. E a quinta. E também as primeiras dezoito horas da sexta.

17h. Falta apenas uma hora pra ela poder correr pro brigadeiro e praquela garrafa de vinho, que deveria ser aberta apenas na sexta. Mas ela merece. É segunda. Antes disso ela, provavelmente, vai se render a um ou dois merecidos pedaços de pizza de quatro queijos. E, como sempre, ela está cansada demais e a academia vai ficar pra amanhã (um amanhã que nunca chega, inclusive). Dos 3kg que ela perdeu durante alguns meses do ano passado, todos foram recuperados (além de um bônus de 5kg, claro).

Seu chefe a chama na sala. Por favor, que seja pra falar das flores. Por favor, que seja pra falar das flores. Apresentação pra Diretoria? Pra amanhã cedo? Ok.

Cecília também não sabe falar não. Cecília odeia 67% da sua semana. Cecília ama pizza, brigadeiro, vinho e 33% da sua semana, quando ela pode se dedicar a fazer absolutamente nada. No momento, fazer nada é o que mais deixa Cecília feliz. Nada deixa Cecília feliz.

***

Querida Cecília, é hora de mudar.

do-more-happy-hora-mudar-mudanca-bem-estar-mude-me

Posts Relacionados:

Discussão

Deixe um Comentário