Quando me tornei um ser humano detestável | O retorno do mude.me – Parte II

setembro 25, 2016

Para marcar esta nova fase do mude.me, decidi contar tudo o que aconteceu nos últimos 7 anos: como eu engordei, como eu emagreci e o que aprendi engordando novamente – já adianto que engordar de novo foi a melhor coisa que me aconteceu. Então, escrevi uma série com 4 textos e todos eles estão disponíveis aqui.

Em janeiro de 2014, eu já não conseguia mais gostar do que via no espelho. Mesmo tendo ido de GG para M e de 48 para 44, eu me sentia gorda, feia. O número na balança não me parecia justo. Não era justo continuar gorda, mesmo comendo direito e me exercitando.

De abril de 2013 até aquele momento, eu já havia me transformado em uma pessoa gordofóbica, reclamona e que vivia reproduzindo machismo por aí. Adorava quando alguma amiga ou conhecida começava a fazer dieta e emagrecer… Eu as parabenizava, falava que elas estavam lindas a cada foto de antes e depois. Afinal, eu as estava incentivando, não é mesmo? Não. Não mesmo. Podia até ser magra (mesmo não me vendo magra, eu sei que era), mas era um ser humano detestável. Hoje, nem eu seria minha amiga!

A situação ficou ainda pior, quando descobri um jeito de – finalmente – diminuir aquele número na balança, que me incomodava tanto: alimentação low-carb.

A alimentação low-carb é uma coisa maravilhosa, desde que você esteja com a cabeça no lugar. E a minha cabeça, definitivamente, não estava no lugar.

O peso foi caindo, caindo e caindo. Em um mês devo ter pedido uns 9kg. Me pesava todos os dias, no banheiro da academia. Só de calcinha e top. Depois do banho, pesava a calcinha e o top para subtrair do valor que a balança havia dado quando os estava vestindo.

Fiz os cálculos e, se tudo corresse bem, chegaria aos meus tão sonhados 65kg em um mês e meio.

Uma das coisas normais quando você come pouco carboidrato e mais gordura boa é que você fica por horas e horas sem sentir fome. É comum que adeptos desse estilo de alimentação façam duas refeições por dia. Mas não é muito bom fazer jejuns muuuuito longos… Na época, li que mulheres não deveriam passar de 18h de jejum, por uma questão hormonal.

Nem me importei.

Cheguei a fazer jejuns de 24h. E me sentia realizada quando terminava um desses ciclos, que eram contados até os segundos, praticamente.

Comecei a ficar com medo de comer. Mesmo comida saudável. A fome vinha e eu disfarçava com água, café, chá… Qualquer coisa que não fosse comida. Quando já não conseguia mais raciocinar por causa da fome, saía para comer algo. Ia sempre no mesmo self service. Não deixava que meu prato passasse dos R$10,00.

A corrida tinha parado de ser um prazer, eu só me importava com meu desempenho. Todo dia, uma frustração. Várias vezes, cheguei perto de bater minha meta (correr 5km em menos de 30min), mas minha ansiedade sempre me sabotava.

O Victor, meu noivo, participou de sua primeira corrida de rua comigo e eu o acompanhei. Por mais que estivesse feliz por ele estar correndo comigo, lá no fundo eu sei que estava frustrada porque sabia que poderia fazer um tempo muuuito melhor se estivesse sozinha.

Só falava de dieta e corrida. Ninguém aguentava mais, menos eu. Quando reclavam, eu ficava brava, falava que era porque as pessoas não entendiam. Se elas fizessem o que eu fazia, elas iriam entender.

“Passava 80% do tempo falando sobre dieta e corrida. E 20% do tempo torcendo para que alguém falasse sobre um desses assuntos para eu poder falar mais.”

A coisa foi só piorando, até que, certo dia, me peguei chorando porque não tinha emagrecido tanto quanto eu havia esperado. Era coisa de uns 400g de diferença. Não era nada. Para mim, era tudo. Foi então que o Victor interferiu, me deu um chacoalhão, falou que eu estava ficando doida e que era hora de rever tudo aquilo.

Concordei.

Decidi ficar um tempo sem ligar muito para a dieta. Coisa de um fim de semana. Estava tranquila porque achava que sabia me controlar. E, mais uma vez, perdi o controle da situação.

A minha relação com a comida nunca foi tão emocional quanto naquele momento e, com um turbilhão de coisas acontecendo, ela se tornou o meu “aconchego”.


Próximo texto: Sobre engordar de novo

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